A SBPSP — Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo — publicou um ensaio que lê filmes apresentados no Oscar 2026 como pistas para compreender mudanças na paternidade e nas formas de autoridade na contemporaneidade. O texto, assinado por Luciana Saddi, reúne comentários sobre obras como Hamnet, Sirât, Uma batalha após a outra, Se eu tivesse pernas, eu te chutaria, Valor sentimental, Foi apenas um acidente e Agente secreto, e propõe que essas narrativas cinematográficas ilustram um “declínio do Nome‑do‑Pai”.
O que a autora chama de “declínio do Nome‑do‑Pai” remete, em termos psicanalíticos, à diminuição da função simbólica tradicional atribuída ao pai: a figura que introduz limites, lei e limites do desejo. Saddi evita afirmar que essa função desapareceu; antes, observa um afrouxamento que deixa o sujeito mais exposto a discursos múltiplos e contraditórios — um cenário interpretado tanto clínica quanto historicamente. Essas observações servem de fio condutor para relacionar temas exibidos no cinema com questões clínicas e sociais atuais.
A análise parte de um fato concreto: a referência ao Oscar 2026, cuja edição ocorreu em 15 de março, e ao conjunto de filmes ali apresentados, que, segundo a autora, refletem modos de representar pais frágeis, ausentes, vulneráveis ou substituídos por novas figuras de autoridade. O ensaio, publicado no blog institucional da SBPSP, busca articular a recepção cultural dessas obras com conceitos fundamentais da psicanálise, aproximando o leitor leigo das categorias teóricas sem jargões técnicos.
No conjunto de filmes citados, a presença do problema paterno aparece em variações: a figura do pai ausente (Hamnet), o pai em desespero que busca a filha (Sirât), a inversão de papéis em que a filha protege o pai (Uma batalha após a outra), ou ainda narrativas em que o Estado assume um lugar que corrói a função protetora tradicional (Foi apenas um acidente). Essas leituras são expostas como sugestões interpretativas, não como avaliações estéticas fechadas, e convidam o público a refletir sobre como a cultura imagética capta angústias sociais.
A autora retoma no texto referências teóricas, como uma passagem de Horenstein (2012), para justificar o argumento de que a psicanálise permite observar, nas produções artísticas, estruturas de época: cada obra contém, em sua singularidade, traços que expressam transformações coletivas. Essa postura destaca o papel da crítica cultural psicanalítica como instrumento para pensar conflitos sociais — por exemplo, a pluralização das paternidades e a emergência de masculinidades menos hegemônicas.
Ao explorar casos concretos de enredo, Saddi enfatiza que o que está em crise não é a paternidade enquanto experiência, mas a antiga função simbólica que organizava o desejo e a lei social. O texto aponta consequências possíveis: menos referências simbólicas estáveis, maior exposição a discursos concorrentes e a necessidade de reinventar laços familiares e modelos de autoridade. A análise sugere que a arte ocupa um papel de elaboração — sobretudo em questões como luto, perdas e recomposição de vínculos —, e que o cinema funciona como um espaço público de elaboração desses conflitos íntimos.
O ensaio também tem tom institucional: publicado no espaço de cultura da SBPSP, vincula a produção crítica da sociedade psicanalítica a programas de debates e ciclos que a entidade mantém com instituições como o MIS e veículos como a Folha de S.Paulo. A autora, Luciana Saddi, é apresentada como psicanalista, mestre em Psicologia pela PUC‑SP e coordenadora do Programa de Cinema e Psicanálise da SBPSP, informação que qualifica a origem da leitura sem transformá‑la em autoridade incontestável.
Para leitores que vêm da clínica, da academia ou da plateia de cinema, o texto oferece um ponto de partida para pensar como imagens contemporâneas tematizam a vulnerabilidade paterna e as reconfigurações da autoridade. Ao situar filmes que alcançaram visibilidade internacional como objetos de análise, a SBPSP conecta debates clínicos à esfera cultural — um movimento que permite, por exemplo, refletir sobre por que determinadas figuras paternas mobilizam culpa, raiva ou identificação em diferentes públicos.
Em termos jornalísticos, a publicação na SBPSP representa um cruzamento entre agenda cultural e reflexão psicanalítica: trata‑se de uma produção de conteúdo institucional que informa e interpreta, com potencial de orientar ciclos de exibição, debates públicos ou seminários sobre cinema, paternidade e masculinidades. O formato (ensaio no blog institucional) facilita a circulação entre profissionais e público interessado, sem pretensão de produzir dados empíricos novos, mas contribuindo para o debate público sobre representações sociais.
Ao fim, o texto conclui sem encerrar a discussão: aponta que outras temáticas — como a arte como espaço de elaboração dos lutos e das perdas — merecem desenvolvimento posterior. A publicação funciona, portanto, como um chamado à continuidade do diálogo entre psicanálise, cultura e sociedade, com o cinema servindo tanto de espelho quanto de dispositivo de elaboração para transformações contemporâneas.
O que essa notícia ajuda a compreender
A leitura proposta pela SBPSP torna explícita uma relação que frequentemente permanece implícita: obras de ficção e sensibilidades coletivas não apenas refletem o que pensamos sobre família e autoridade, mas ajudam a elaborar, simbolizar e experimentar novas formas de vínculo. Isso é relevante porque possibilita aos profissionais de saúde mental compreenderem que sintomas individuais podem dialogar com mudanças culturais mais amplas — sem, contudo, reduzir o sofrimento a mera expressão de conjuntura.
No plano social, a hipótese do “declínio do Nome‑do‑Pai” propõe um deslocamento de ênfase: de modelos hierárquicos e estáveis para arranjos mais fluidos de autoridade. Essa mudança afeta não só relações intrafamiliares, mas também instituições que historicamente dependem de figuras de comando — educação, Justiça, representações políticas — e explica parte das disputas culturais em torno da paternidade e da masculinidade.
Culturalmente, o aproveitamento do Oscar 2026 como corpus de análise ilustra como festivais e premiações globais operam como nós de circulação de imagens e narrativas. Quando uma obra alcança ampla visibilidade, suas maneiras de representar pais e filhos entram na conversa pública e influenciam repertórios imaginários — um processo que jornalistas, curadores e formadores de opinião podem acompanhar como indicador de mudanças simbólicas.
Clinicamente, a articulação entre cinema e psicanálise estimula práticas de formação e reflexão: seminários que discutem filmes podem funcionar como espaço de atualização teórica e como laboratório para pensar transferências culturais. Contudo, é preciso manter a prudência: leituras interpretativas não substituem dados empíricos sobre dinâmica familiar ou saúde mental, mas ampliam o repertório interpretativo do clínico.
A fonte orienta a apuração; o texto é original do CNBRASIL.
Quer aprofundar seus conhecimentos e conhecer uma formação em psicanálise?
Veja a proposta de formação, a estrutura do curso e todas as informações para começar.
Conhecer a formação