Um modelo de atendimento que prioriza continuidade, participação e vínculos apresentou resultados promissores no cuidado de pessoas em crise de saúde mental. A pesquisa, liderada por um professor da University College London e publicada no The Lancet Psychiatry, avaliou a abordagem conhecida como Diálogo Aberto.
O ensaio ODDESSI acompanhou 494 participantes atendidos por serviços de saúde mental na Inglaterra. Eles receberam o modelo de Diálogo Aberto ou o tratamento normalmente oferecido após uma crise. A pesquisa é apresentada pela universidade como o primeiro ensaio clínico randomizado da abordagem.
No Diálogo Aberto, paciente, profissionais e integrantes de sua rede social — como familiares, amigos ou cuidadores — participam de encontros para construir uma compreensão compartilhada da situação. Dois profissionais permanecem envolvidos ao longo do cuidado, reduzindo a fragmentação entre equipes.
O estudo não encontrou diferença no seu desfecho principal: o tempo até a primeira recaída depois da recuperação inicial. Esse resultado impede concluir que o modelo seja superior em todos os aspectos e reforça a necessidade de novas pesquisas.
Nos desfechos secundários, porém, os participantes atendidos pelo Diálogo Aberto apresentaram chances mais de três vezes maiores de não precisar de internação psiquiátrica durante o acompanhamento. Também houve menor chance de novo encaminhamento para serviços de crise.
A abordagem foi associada ainda a melhor avaliação da recuperação, da qualidade de vida relacionada à saúde e da satisfação com os serviços. Os pesquisadores observam que os resultados podem estar ligados à continuidade da equipe e ao modo colaborativo de organizar o cuidado.
Os autores reconhecem limitações. A participação de familiares e amigos ficou abaixo do planejado, e o modelo aplicado não incluiu algumas intervenções familiares utilizadas em outros contextos. Por isso, os achados são encorajadores, mas não encerram a discussão sobre eficácia.
O que essa notícia ajuda a compreender
Uma crise costuma colocar a pessoa em contato com equipes diferentes e exigir que sua história seja repetida diversas vezes. Quando há continuidade, diminui-se o risco de que o cuidado se transforme em uma sequência de atendimentos desconectados.
A presença da rede social pode oferecer informações, suporte cotidiano e novas possibilidades de compreensão. Isso não significa retirar a voz do paciente: o princípio central é ampliar sua participação nas decisões e construir acordos de maneira compartilhada.
Para a psicanálise, o estudo interessa por recolocar vínculo, escuta e singularidade no centro da organização do cuidado. Ainda assim, nenhum modelo deve ser aplicado como fórmula universal. Situações de crise exigem avaliação profissional, proteção imediata quando houver risco e articulação com os serviços disponíveis no território.
A fonte orienta a apuração; o texto é original do CNBRASIL.
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