A Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo (SBPSP) anunciou a realização da 1ª Jornada de Psicossomática Psicanalítica para o dia 31 de outubro de 2026, um encontro dedicado a examinar as formas como o corpo figura na clínica psicanalítica contemporânea e a ampliar instrumentos de escuta e intervenção. A programação prevê conferências internacionais, mesas redondas e a apresentação de material clínico, com o objetivo de aproximar teoria e prática em questões que envolvem somatização e falha de simbolização.
Segundo a SBPSP, a jornada terá duas conferências principais e três mesas redondas que abordam a relação entre a psicossomática e temas como narcisismo, meio ambiente e dor psíquica; também está prevista a exposição de casos clínicos para discussão analítica em profundidade. A comissão organizadora lista especialistas brasileiros responsáveis pela curadoria do encontro. O evento foi descrito pela entidade como uma iniciativa para trazer referenciais teóricos e clínicos que possam iluminar práticas diante de quadros nos quais o corpo assume papel central no sofrimento psíquico.
A própria expressão "psicossomática psicanalítica" refere-se, na apresentação da SBPSP, a uma tradição teórica que não separa corpo e mente, mas pensa-os como um mesmo território ocupado por estruturas psicossomáticas com graus variados de complexidade. Nessa perspectiva, condições chamadas de somáticas não são apenas sinais médicos; são manifestações que exigem uma escuta que leve em conta déficits na capacidade de transformar experiências corporais em representações por meio da palavra — o que a psicanálise chama de simbolização.
O texto que anuncia a jornada explica ainda processos teóricos centrais para esse campo: a regressão somática — quando a desorganização psíquica se fixa em um órgão ou segmento corporal e cria um 'platô' a partir do qual se pode reorganizar a vida psíquica — e o desligamento psicossomático, processo de maior duração que pode levar à cronificação de uma doença somática por perda de valores libidinais. Esses conceitos, vinculados a autores da Escola de Psicossomática de Paris, ajudam a pensar por que alguns sofrimentos aparecem principalmente no corpo e resistem a serem traduzidos em discurso.
Na programação oficial, a SBPSP confirmou a participação de Diana Tabacof, membro da Sociedade Psicanalítica de Paris e do Instituto de Psicossomática de Paris, que falará sobre o modelo pulsional da Escola de Paris; e de Mikel Zubiri, analista didata da Sociedade Psicanalítica de Madri, que discutirá a abordagem a pacientes com manifestações somáticas graves. Além das conferências internacionais, especialistas brasileiros participarão das mesas, com foco em articulações entre teoria, clínica e cenários contemporâneos de sofrimento.
Para a prática clínica, a SBPSP destaca que a psicossomática psicanalítica amplia as ferramentas de escuta: em quadros em que há dificuldade para sentir ou nomear emoções, o corpo passa a atuar como palco de dor psíquica, e o sintoma corporal — desprovido de representação — exige do analista a tentativa de restabelecer correlações perdidas entre experiência e palavra. A instituição avisa que, nesses casos, o trabalho analítico demanda cuidados específicos quanto à forma de exposição clínica e à escuta do material somático.
O anúncio também relaciona a psicossomática a termos freudianos clássicos, como vida pulsional e estruturas de funcionamento das famílias de neuroses, e aponta para a relevância de distinguir diferentes organizações psíquicas ao lidar com sinais somáticos. A proposta da jornada é, portanto, oferecer um espaço de formação e debate para psicanalistas, psicoterapeutas, médicos e demais profissionais interessados em integrar perspectivas psicanalíticas à compreensão de manifestações corporais na clínica contemporânea.
A organização do encontro indica como fonte a Comissão Organizadora da 1ª Jornada de Psicossomática Psicanalítica, formada por Victoria Regina Béjar, Cândida Sé Holovko, Denise Aizemberg Steinwurz, Eliana Riberti Nazareth e Silvia Joas Erdos, que assinam a convocação e o delineamento dos temas. A SBPSP sugere que o público atento a desafios da clínica atual acompanhe a programação e as discussões que, segundo a entidade, visam fortalecer a atenção ao vínculo somato‑psíquico na prática analítica.
Ao anunciar a jornada, a SBPSP insere um debate técnico e cultural num campo em que a relação entre corpo e sofrimento mental tem ganhado mais visibilidade, tanto nas práticas clínicas quanto em espaços formativos. O encontro promete articular literatura clássica e pesquisas contemporâneas para oferecer referenciais que auxiliem a identificação e o manejo de quadros em que há fragilidade da simbolização — um tema que reverbera em clínicas, hospitais e serviços de saúde mental.
O que essa notícia ajuda a compreender
A 1ª Jornada de Psicossomática Psicanalítica da SBPSP representa, antes de tudo, uma tentativa institucional de reordenar a atenção clínica para fenômenos que desafiam fronteiras disciplinares: quando o sofrimento se dá no corpo, nem sempre é suficiente recorrer apenas ao protocolo biomédico; a psicanálise oferece categorias que ajudam a dar sentido a esses relatos corporais, sem reduzi‑los a meros sinais somáticos. O anúncio da jornada coloca em evidência a necessidade de formação continuada para que profissionais saibam distinguir entre sintomas com expressão orgânica primária e manifestações que exigem uma escuta psicodinâmica.
Do ponto de vista clínico, a ênfase na incapacidade de simbolizar — isto é, na dificuldade de transformar experiências em palavras — chama atenção para um problema recorrente nas práticas contemporâneas: a pressa em nomear diagnósticos e a consequente perda da paciência analítica. Abordagens como a psicossomática psicanalítica convidam a um trabalho que respeite tempos, ritmos e modalidades de expressão do paciente, reconhecendo que o corpo pode agir como um substituto da palavra. Essa implicação tem impacto direto em protocolos de atendimento, em particular na articulação entre serviços de saúde mental e cuidados médicos.
Culturalmente, falar de psicossomática hoje também é tocar na experiência coletiva do corpo como registro de tensões sociais: precarização, desamparo e ritmos acelerados de vida podem se manifestar em dores, fadiga e doenças crônicas quando as vias de simbolização são escassas. A jornada proposta pela SBPSP, ao reunir vozes internacionais e nacionais, aposta numa circulação de referências teóricas que pode contribuir para uma clínica mais sensível às formas como o sofrimento individual se entrelaça com determinantes sociais e com a história biográfica do sujeito.
Finalmente, a programação que combina conferências, mesas e análise de material clínico reflete um movimento formativo: não se trata apenas de expor conceitos, mas de discutir casos, diferenciações diagnósticas e modos de intervenção. Para pesquisadores e clínicos, essa troca é um espaço produtivo para revisar pressupostos e construir práticas que não desvalorizem nem o enigma do corpo nem a exigência ética de uma escuta que preserve a singularidade do sofrimento.
A fonte orienta a apuração; o texto é original do CNBRASIL.
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