Uma pesquisa conduzida pela Fundacentro em parceria com a Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj) encontrou sinais de sofrimento mental em grande parte dos profissionais entrevistados: 50,2% relataram sintomas compatíveis com depressão, segundo o levantamento publicado em 22 de setembro de 2026. O estudo ouviu 257 jornalistas e foi apresentado em reunião do Conselho de Comunicação Social do Congresso Nacional no dia 14 de setembro, em Brasília.

Além dos sintomas depressivos, o inquérito registrou prevalência de estresse em 47,8% dos respondentes e ansiedade em 35,8%; quase metade da amostra (47,9%) relatou sintomas de insônia. O documento detalha essas proporções e identifica padrões que ligam as queixas a fatores do ambiente de trabalho.

Os autores descrevem a metodologia do estudo como transversal, com amostragem por conveniência e técnica “bola de neve”, e uso de instrumentos padronizados para medir variáveis psicológicas e psicossociais. Entre as ferramentas aplicadas estão a escala DASS‑21 (para depressão, ansiedade e estresse), itens do questionário de sono de Karolinska para insônia, o instrumento NAQ‑R para identificar assédio moral e o AUDIT para consumo de álcool. Esses detalhes metodológicos constam do relatório técnico divulgado pela Fundacentro.

A investigação também aferiu exposições no local de trabalho: 37,0% da amostra foram classificadas como expostas a assédio moral pelo critério de Leymann, e 30,4% relataram experiências de cyberbullying quando avaliado pelo instrumento EAC. O uso de álcool em padrão de risco, nocivo ou dependente foi identificado em 21,5% dos participantes. Esses números aparecem no corpo do relatório como indicadores de risco psicossocial.

Outro achado relevante foi a combinação de alta demanda e baixo controle no trabalho — cenário que a literatura sobre saúde ocupacional costuma identificar como de maior risco para o adoecimento mental — presente em 28% da amostra. Paralelamente, 61,1% dos entrevistados perceberam baixo apoio social no ambiente profissional, um fator que pode agravar o impacto de pressões e inseguranças laborais.

O relatório aferiu ainda a capacidade para o trabalho por meio do Índice de Capacidade para o Trabalho (ICT): 51,8% apresentaram capacidade moderada e 33,1% baixa. A satisfação no trabalho, medida pelo Occupational Stress Indicator (OSI), ficou ligeiramente abaixo do ponto médio da escala, sinalizando uma avaliação geral de insatisfação que acompanha os marcadores de saúde mental. Esses dados aparecem nos resultados numéricos do estudo.

Os responsáveis pelo estudo alertam que as proporções de sintomas em níveis severos e extremamente severos são “particularmente alarmantes” e defendem a necessidade de diálogo entre trabalhadores, empregadores e legisladores para gerar ações que reduzam a insalubridade dos ambientes de trabalho jornalístico. A apresentação pública no Senado buscou justamente traduzir os achados em visibilidade institucional.

Por se tratar de amostragem não probabilística e de natureza transversal, o estudo não permite generalizações estatisticamente representativas para toda a categoria; ainda assim, os autores e entidades parceiras interpretam os resultados como evidência de um problema robusto que demanda políticas públicas e medidas de saúde ocupacional focadas em prevenção, acolhimento e reorganização do trabalho. O relatório técnico explicita essas limitações metodológicas.

Para leitores que não atuam na área clínica, os instrumentos citados ajudam a entender o que foi medido: a DASS‑21 é uma escala breve que separa sintomas de depressão, ansiedade e estresse; o NAQ‑R lista comportamentos negativos no trabalho para identificar padrões de assédio; o AUDIT aponta riscos relacionados ao consumo de álcool; e a escala de Karolinska examina a qualidade e quantidade do sono. O uso coordenado dessas ferramentas permite mapear tanto sintomas individuais quanto fatores organizacionais.

O estudo chega em um momento de atenção ampliada para a saúde mental no trabalho, em que categorias que lidam com prazos, instabilidade e exposição pública — como jornalistas — reaparecem nas estatísticas de sofrimento psíquico. Autoridades e representantes sindicais presentes à sessão no Senado defenderam a abertura de negociação para medidas concretas. O relatório completo e as apresentações associadas foram disponibilizados pela Fundacentro e pela Fenaj nas sessões institucionais.

O que essa notícia ajuda a compreender

O levantamento da Fundacentro oferece uma fotografia nítida de como condições laborais se traduzem em sinais de desgaste mental entre jornalistas: mais do que estatísticas isoladas, os indicadores combinados (depressão, estresse, insônia, baixos níveis de suporte social) apontam para um padrão de risco que envolve organização do trabalho, cultura institucional e precariedade. Interpretar esses números exige atenção ao contexto: jornadas longas, prazos curtos, trabalho remoto em esquemas híbridos e exposição a ataques online são elementos que operam como multiplicadores de estresse.

Clinicamente, escalas como a DASS‑21 e instrumentos de avaliação do ambiente de trabalho fornecem sinais úteis para políticas de prevenção. Elas não substituem avaliação individual, mas orientam a construção de intervenções coletivas — programas de promoção de saúde, espaços de escuta, treinamento para chefias e protocolos de proteção contra assédio e cyberbullying. A identificação de 28% em situação de alto desgaste e de mais de 60% percebendo baixo apoio social sugere que medidas organizacionais podem ter impacto mais imediato do que ações exclusivamente individuais.

No plano social e democrático, a fragilidade da saúde mental entre jornalistas tem implicações que vão além do cuidado laboratorial: trata‑se de preservação da condição profissional que permite a imprensa cumprir sua função pública. Redução de capacidades cognitivas e aumento do afastamento por doença podem comprometer a qualidade da cobertura informativa e a resiliência das redações em momentos de crise. Assim, a saúde ocupacional deixa de ser questão apenas de direitos trabalhistas para tornar‑se interesse público.

Por fim, a pesquisa evidencia a importância de articulação entre pesquisa ocupacional, representação sindical e instâncias legislativas. Ao levar os resultados ao Senado, autoras e parceiros procuraram transformar dados em pauta política. Ainda que o desenho amostral limite generalizações, a convergência entre evidência empírica e mobilização institucional pode acelerar a adoção de políticas de prevenção e mitigação — desde protocolos de atendimento e encaminhamento até programas de reorganização do trabalho e fortalecimento de redes de apoio.

Fonte consultadaFundacentro (gov.br)

A fonte orienta a apuração; o texto é original do CNBRASIL.

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